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A possibilidade de cura e redenção

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 31.12.15

Ontem revi na RTP Memória The Naked Spur que já está a navega neste rio. Um dos filmes que revi mais vezes. É um Anthony Mann e é um James Stewart. E são aquelas montanhas que me lembram outras montanhas... E aquele rio caudaloso, como o rio sem regresso...

É, pois, com estas personagens que vou manter este rio a navegar sem saltar 2015. Personagens que se vão juntando por um objectivo comum, um objectivo material, receber uma recompensa. Nenhum se questiona sobre as implicações desse objectivo, uma cabeça a prémio. A não ser o próprio, o foragido, e a rapariga que o acompanha.

O filme vai-se construindo à volta das personagens e dos seus diferentes desejos: o rancheiro que sonha recuperar o rancho perdido; o velho no rasto do ouro; o jovem irrequieto e delinquente; o foragido oportunista e amoral; e a jovem altruísta.

Há um caminho a percorrer e há pausas para descansar. Tal como na vida, as peripécias sucedem-se, os contratempos, mas também as descobertas.

Uma a uma, as personagens vão ficando pelo caminho. Até restarem apenas duas.

A maior descoberta: é preciso começar de um outro ponto de partida. Começar tudo fresco. Sem memórias a persegui-las. Califórnia é um bom destino.

 

Os westerns de John Ford e Anthony Mann são muito mais do que simples histórias de cowboys, rancheiros e índios. São histórias humanas, à dimensão humana. Podiam desenrolar-se num qualquer outro cenário. E são intemporais. A violência, a ganância, a sobrevivência, são actuais. E, com sorte, também a possibilidade de cura e redenção.

 

 

 

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publicado às 20:19

Rossellini e o vulcão como metáfora cinematográfica

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 18.04.10

 

Ultimamente dou comigo a ver filmes italianos e franceses actuais, europeus digamos assim. Não incluo os filmes ingleses nesta categoria de filmes europeus, pois a sua concepção lembra-me muito a construção dos argumentos americanos e actualmente, dos ingleses, prefiro as séries televisivas históricas. Agora estou mais virada para o cinema europeu do sul. Cinema italiano, francês, espanhol...

O cinema inglês foi, para mim, Powell e Pressburger, Hitchcock e David Lean. Embora um ou outro filme actual ainda mexa comigo, essa foi a minha época preferida. Depois houve um tempo em que via filmes suecos (Bergman) e nórdicos em geral... mas agora estou mais sulista talvez...

 

A Europa cultural está muito para além de lugares cinematográficos, exotismo de um passado ainda presente, turismo histórico, etc. A Europa cultural ainda existe, é preciso não deixar que o processo de erosão actual a consiga destruir. E só por isso já valia a pena ver alguns filmes actuais. Não propriamente pela linguagem específica do cinema, porque aí os especialistas são os americanos. Desconheço o cinema actual do oriente, Japão, Índia, China, Coreia, etc., mas dizem-me que há imenso a descobrir, autênticas revelações. Não duvido. Mas tenho de me concentrar nalgum ponto e nalguma motivação, e agora é a Europa que ocupa os meus neurónios e o meu coração. Perceber quem somos e para onde nos estão a querer levar, arte incluída, sendo a arte comunicação connosco próprios, com os que nos rodeiam e com o mundo.  

 

O impacto que o cinema europeu teve na minha pessoa foi gradual, insinuou-se. Na infância e pré-adolescência não fui imune à terrível poesia e romantismo da língua francesa, por exemplo. Na televisão passavam séries de cavaleiros com nomes românticos, Le Chevalier de la Tempête, não acham incrível? Sim, que adolescente ficaria imune? Aqueles cavaleiros corajosos, sempre de espada pronta para defender a sua dama, os castelos sombrios e majestosos... ainda por cima andava a ler o Alexandre Dumas... Também passaram nessa altura séries inglesas de época que acompanhei com imenso interesse: Disraeli, Anna Karenina, Eu, Claudius... O teatro inglês, e o teatro filmado em geral, era muito valorizado.

 

Mas os meus primeiros filmes foram os musicais americanos na televisão a preto e branco, as comédias, as aventuras, a capa e espada, os piratas. Só mais tarde iria aprender a valorizar os diálogos, o seu incrível ritmo, a sua ironia. O mesmo para os filmes ingleses, o lado mental dos seus filmes, sóbrio e afectado.  

Entretanto descobri o cinema italiano, na comédia inicialmente, mas depois no neo-realismo. La Strada foi o que mais me impressionou. A música ajudou a fixar essa impressão. Mas houve outro filme, o Stromboli, esse vulcão activo nessa ilha atávica, visceral.

 

É dessa ilha e desse vulcão que gostaria de falar hoje. De uma aldeia de vida dura, de gente dura. E como uma mulher que escapara a um campo de concentração se vê ali enfiada, numa nova prisão, a da natureza violenta, a da solidão e isolamento.

O filme é quase um documentário, o que o torna incrivelmente realista. Vale a pena rever aquela escalada da mulher pela montanha, a nuvem que a envolve, o seu terrível cansaço. A natureza ainda lhe ensinará o essencial de si própria, mas porque ela quer viver. Por vezes é preciso enfrentar a morte, o fim de tudo, para poder respirar e viver.

 

O vulcão é uma metáfora, a meu ver, terrivelmente intensa e sensual. Os japoneses sabem-no pois explicam quase tudo o que lhes acontece a partir da natureza. E isto é possível porque a sua linguagem é essencialmente visual.

A natureza tem tudo para nos revelar sobre a nossa própria natureza. Rossellini mostra-nos isso da forma mais realista e poética possível. Ele que foi um dos realizadores que melhor conciliou realidade e poesia. Lembram-se da Viaggio in Italia? Desse outro vulcão, o Vesúvio, e das marcas da destruição que deixara atrás de si? Do impacto que essa viagem teve nessas duas criaturas a organizar as suas vidas no caminho quase inevitável do cinismo e da indiferença? E da ideia que fica da possibilidade de descoberta individual, do essencial, quando estamos ainda receptivos às revelações da natureza?

 

Um pequeno intervalo aqui, para recarregar as baterias...

 

 

Voltando ao cinema europeu, tenho para mim que a energia vital de filmes como estes do Rossellini só é possível com a autenticidade. E que esta autenticidade ainda é recuperável no cinema europeu, mas já não a vemos no cinema americano que se estereotipou por completo, salvo uma ou duas excepções. O próprio Wim Wenders, que se iniciou a filmar fascinado pela América cinematográfica, voltou à Europa original e os Anjos vêm daí, os sonhos de humanos vulneráveis, na procura de um sentido, de uma lógica para as suas existências... Vi ontem o seu Imagens de Palermo e fiquei impressionada. Onde é que ele poderia encontrar aquele percurso em aberto, aquela inquietação humana, frágil e humilde, na América? Só no território europeu, este continente tão velho, tão antigo, tão decadente e, no entanto, o único onde ainda é possível pôr tudo em causa sem qualquer estranheza, sem preconceitos nem alibis.

É isto que me motiva agora,  tentar vislumbrar a identidade cultural europeia, essa complexidade e essa autenticidade, essa ousadia de quem atravessou séculos e já viu tudo, de quem perdeu a inocência do olhar mas que está finalmente preparado para se render à sua verdadeira natureza. Finalmente, a verdade. Para a assumir é preciso coragem. Para se olhar nesse espelho. Wim Wenders revela-nos isso. Através do fotógrafo que deambula pelas ruas de Palermo e adormece nas ruas, de cansaço ou porque finalmente se rende...

 

 

 

 

 

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publicado às 20:15

"Tirania está mal escrito..."

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 02.04.10

 

Tirania está mal escrito, dito pelo tirano, é a line mais paradoxal do filme The Postman. O General Bethlehem que pensa dominar todo o território, descobre a rebeldia em simples folhetos. A raiva da descoberta do impensável até esse dia, leva-o a retaliar em diversas aldeias indefesas. Mas o movimento da liberdade e da esperança já se tinha iniciado e já não iria parar.

E pensar que esta aventura se iniciara da forma mais casual. Bem, não tão casual assim... Afinal, a liberdade e a esperança estão inscritas nos genes humanos. E mais ainda na alma americana, mas isso já é outra história...

 

Bem, vamos fazer rewind e começar do princípio: estamos em 2013, no pós-guerra total, que deixou a América, e talvez o mundo, numa Idade Média reeditada: voltou-se ao cavalo como meio de transporte, e às lanternas de gás e às fogueiras. Os carros apodrecem pelos caminhos desertos ou nas aldeias onde as pessoas se agruparam. Só as armas dos bandos armados ainda funcionam, ou não fosse o lado bélico outro dos genes humanos... Um desses bandos armados, talvez o mais forte, é liderado pelo General Bethlehem, que utiliza a violência da forma mais arbitrária, perversa e cruel.

 

 

Um intervalo aqui, retomo o fio à meada amanhã, se não se importam. Mas quis já aqui deixar o filme que escolhi nesta Páscoa. E já irão perceber porquê...

  

O nosso herói, futuro homem dos correios (não gosto muito da palavra carteiro), é apanhado pelo bando do General Bethlehem e obrigado a aderir ao clã e a prova é uma marca no braço. Estes soldados são autênticos escravos, nada mais, sujeitos à sede de violência de um General demente. Há nele um prazer em humilhar os mais fracos. Para provar a sua liderança inquestionável, submete-os às humilhações mais incríveis e a uma vida de terror, com jogos absurdos. Mata sem quaisquer escrúpulos, e pior!, sem qualquer critério. Mata porque sim, porque lhe apeteceu, porque os quer ver completamente dominados pelo medo. Nele há também uma erudição adquirida à pressa, debita de vez em quando uma ou outra frase de Shakespeare que deixa os homens perplexos.

O General desconfia que o nosso herói sabe mais do que o que revela saber, que é diferente dos restantes combatentes. Desafia-o um dia a citar Shakespeare. O nosso herói percebe que para sobreviver àquele clã terá de provar que é ignorante e cobarde. Mas será a citar Shakespeare que fica na mira do General. Terá, assim, de provar que é um cobarde, nada interessado em lutas ou lideranças. Aceita os golpes do General sem ripostar e promete a si próprio que irá escapar dali o mais depressa possível.

Há pessoas que nunca se submetem à escravidão. E, mesmo presas, tudo farão para se libertar. Enquanto não o conseguem concretizar fisicamente, ou geograficamente, escapam para um mundo só seu. O nosso herói sonha com um lugar, Saint Rose. Mesmo que lhe digam que não existe, ele está seguro, seguríssimo, que um dia chegará a Saint Rose.

 

Muitas peripécias o esperam nessa aventura maior de se libertar da escravidão. Desde a traição de um dos companheiros mais chegados à quase traição de um outro. Mas consegue. Digamos que a sorte o acompanhou. Até a noite, a chuva e o frio o deixarem completamente exausto. É a tremer que entra num jipe abandonado e descobre, à luz de um isqueiro, que o seu habitante, já esqueleto, era um homem dos correios. Com uniforme e tudo. E descobre ainda o saco da correspondência, com cartas lá dentro, cartas com destinatário mas que não chegaram ao destino. Fica ali a lê-las. De manhã, já é um outro homem que sai do jipe. De uniforme e um novo ânimo. Já não é apenas um fugitivo, tem uma função, levar as cartas ao seu destino.

 

Os correios funcionam aqui como o símbolo perfeito da sobrevivência das pequenas comunidades espalhadas e isoladas, e da resistência possível à violência dos bandos armados. Os correios como símbolo dessa sobrevivência e resistência, pois permitem uma ligação territorial, uma unidade territorial, são aqui um elemento muito inteligente e original da história e do filme.

Quando tudo parece perdido, as pessoas isoladas nos seus refúgios, e vulneráveis à pilhagem dos bandos armados, surge este elo de ligação, e tudo começa ali, naquele homem dos correios, vestido com o uniforme, e a contrariar todas as notícias, todas as evidências, da destruição total da América como país organizado, com um Presidente e um governo. Isto é genial. Genial. E funciona muito bem no filme.  

 

 

Um novo intervalo, para retomar o raciocínio... Ainda gostaria de evidenciar o papel de um miúdo voluntarioso, o animado Ford Lincoln Mercury, que mudara de nome porque este ligava melhor com a condução de carros. Esta personagem é uma das peças-chave da história. Mas já me adiantei à história.

 

O primeiro teste ao seu novo papel não foi propriamente fácil. A aldeia protege-se como pode, à maneira dos antigos fortes americanos do far west quando conquistavam o território aos seus habitantes originais. A protecção é uma muralha improvisada, com troncos de árvores. O Sheriff de Pineview é o mais reticente possível à sua entrada na aldeia. O nosso herói bem tenta mostrar-lhe que representa o governo e que as comunicações e o funcionamento dos correios tinham sido restabelecidos, mas o Sheriff é um homem céptico. Só com o impacto da leitura de uma carta, último recurso criativo do nosso homem dos correios, num destinatário que responde no meio da multidão expectante, é que lhe abrem o portão. A mulher, apoiada pela filha, adquire uma nova vida, a carta mostrava-lhe que alguém da sua família sobrevivera à guerra. E a magia começa ali. Recebem-no como a um hóspede desejado, dão-lhe jantar, e ainda haverá baile. E também há uma rapariga, e que até é uma rapariga muito voluntariosa, além de muito bonita, diga-se de passagem. Mas terão de ver o filme, porque eu vou-me concentrar na mensagem que me inspirou.

Recebem-no, pois, como um hóspede, disse ali atrás. Todos, não. O Sheriff mantém o cepticismo, não esquecer que é o responsável por aquela população, e dá-lhe o prazo dessa noite para se ir embora dali.

 

E agora, sim, temos esse encontro mágico do nosso herói com o posto dos correios, uma pequena casa abandonada. Já lá dentro vê o lema dos homens dos correios, gravado nas traves que ligam as paredes ao teto... faça sol, chuva, intempéries, nada detém os homens dos correios na entrega das cartas... qualquer coisa assim. E é aqui que se estabelece o diálogo mais interessante do filme: o rapaz, de que já aqui falei, o Ford Lincoln Mercury, desistira do sonho de conduzir carros (isso é para crianças) e quer tornar-se igualmente um homem dos correios. É-lhe dito que só um outro o pode nomear. Terá de erguer a mão direita e prestar juramento. E qual é o juramento? O nosso herói vai-lhe dando o lema gravado na trave. É uma das cenas mais conseguidas do filme. Aqui ainda não o sabemos, mas o rapaz revelar-se-á muito mais convicto e impetuoso no seu novo papel do que o original, e não é por ser mais jovem. É essa a sua natureza. 

 

Outra cena comovente: a despedida, nessa manhã, a aldeia em peso a vê-lo partir, já transportando mais cartas que lhe tinham deixado à porta. Mas já vai a cavalo, um presente da população. As pessoas trauteiam o hino enquanto ele se afasta (espero não estar a confundir a cena). O Sheriff revela-lhe ainda não estar convencido da sua autenticidade. O homem dos correios responde-lhe que só o poderá confirmar se ele voltar com uma carta. O Sheriff aproxima-se então a cavalo, já na estrada poeirenta, e dá-lhe uma carta. O filme tem cenas assim...

 

 

A aventura começara. A esperança é contagiosa. Anima. E todos se dispõem a pagar o preço pela liberdade, mesmo que seja o mais elevado possível, a própria vida.

Quando o nosso herói regressa, com as cartas que tiveram resposta, entre elas a do Sheriff, fecha-se esse círculo, a comunicação restabelecera-se. E reforça-se a esperança, pode ser que até talvez haja mesmo um governo e que o Presidente diga mesmo aquela frase, tudo vai correr bem...

Nesse regresso, será ainda surpreendido pela nomeação de novos homens dos correios, todos muito jovens, excepto um, sexagenário, especialista em comunicações. Ford Lincoln Mercury não tinha perdido tempo. E acrescentara ao lema, defender as cartas com a vida se preciso fosse. 

Todo o filme respira esse amor pela liberdade, como condição-base da dignidade de cada indivíduo. Como única forma de vida digna de ser vivida.

É assim que irão enfrentar o General Bethlehem, primeiro com os folhetos da rebelião, contra a tirania, folhetos que deixarão o General furioso e que o levam a dizer a line que dá o título a este post. A retaliação começa, contra as populações e contra os novos homens dos correios. A morte de quatro jovens levará o nosso herói a pegar no Ford Lincoln Mercury pelos colarinhos, os homens são mais importantes do que as cartas. Mas já nada os demove, todos tinham percebido a importância da sua missão, restabelecer a comunicação, unir as aldeias oprimidas.

 

Outra cena comovente: o General manda queimar a bandeira americana orgulhosamente hasteada  no posto dos correios. E depois atear o fogo ao próprio posto. Vemos os rostos tristes de toda a população. A bandeira como símbolo da unidade e da liberdade. Isto é muito americano, e é mais do que orgulho ou veneração, é afecto genuíno.

A liberdade dá imenso trabalho e exige vigilância constante. Não parece, mas é assim. O impulso totalitário também está inscrito nos genes humanos. Os tiranos, embora sejam menos em número, são mais fortes, porque são imunes à consciência, esse travão natural, e à empatia, que permite respeitar o próximo. Estão a ver o dilema? Nunca está concluída esta demanda. Nunca.

O nosso herói ainda terá de demonstrar valentia perante o clã. Uma trabalheira... mas no final, haverá um intervalo para amar e para segurar nos braços uma criança: É uma menina... diz-lhe ela. Chama-se Hope... Querem melhor fim para um filme?

Bem, não foi esse o entendimento de Kevin Costner que o projectou trinta anos para a frente, e essa é que é a cena final.

 

Este é o segundo Kevin Costner, como actor, a navegar aqui neste rio, mas o primeiro como realizador. Dele como actor, gostei muito do seu Eliot Ness n' Os Intocáveis, do seu Ray Kinsella no Campo de Sonhos, e do seu Jim Garrison no JFK. Mas talvez o seu papel tenha sido mesmo o Lieutenant Dunbar no Danças com Lobos.

 

 

 

Coincidência interessante: Saiu este mês um livro de Charles Bukowski, Correios (editora Antígona), que o apresenta assim: " Correios, o primeiro romance de Bukowski, é baseado na sua experiência como empregado dos Serviços Postais dos Estados Unidos ao longo de uma década, e foi publicado num momento em que o seu nome ascendia ao plano do reconhecimento literário universal.
Ponto de partida ideal para qualquer leitor que se queira iniciar na prolífica obra de Bukowski, encontramos em Correios as qualidades dos seus restantes trabalhos. Repleto de cenas hilariantes, este romance é também um retrato fiel das frustrações de um funcionário público sofredor.
As suas personagens, entre a ficção e a realidade, captam a essência e a universalidade do ser humano e nós, leitores, continuaremos a topar, em Bukowski, com bebedeiras, mulheres, zaragatas, eventuais rebates de consciência, enfim, com os trambolhões da vida."

 

 

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publicado às 02:25

Australia

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 03.05.09

 

Neste fim-de-semana prolongado deu tempo até para ver cinema em casa. Escolhi o Australia, ou foi este filme que me escolheu. É que as cópias já estavam todas esgotadas (1 de Maio!) mas a jovem simpática do Clube Vídeo adiantou-se: Acabaram de entregar uma cópia (era a hora-limite de entrega dos filmes alugados).

Australia veio comigo, pois. Expectativas? Baixas: imaginava-o um filme de encomenda para os actores brilharem e pouco mais. Uma publicidade ao país dos cangurus, também. Um filme de aventuras com todos os ingredientes habituais: herói bonito e corajoso; heroína bonita e rebelde; paixão q.b.; perigos q.b.; diálogos trabalhados ao milímetro para prender a atenção e o interesse; cenas com muita acção, etc.

 

Surpreendentemente, este filme é despretensioso, luminoso, mágico. Não fazia ideia que iria focar a cultura aborígene, que sempre me fascinou, vá-se lá saber porquê.

Começa por nos introduzir aquele terrível racismo: as crianças aborígenes mestiças eram retiradas aos pais e enfiadas numa Missão para ser domesticadas e formatadas segundo a cultura dominante. Também os bares (e outros lugares públicos) eram interditos a pretos.

Ora, o nosso herói (magnífico Hugh Jackman) foge à regra, convive com os pretos. Esta circunstância obriga-o a uma actividade extra (andar à pancada, o chamado boxe de rua ou uma modalidade do boxe, melhor dito, porque aqui tudo vale, até atirar malas de viagem ao adversário).

Esta cena da pancadaria à frente do bar está mesmo fabulosa, lembrou-me os westerns dos anos 40, 50. A Lady Ashley (fabulosa Nicole Kidman) é que não achou graça nenhuma ao ver a sua roupa interior a voar no meio daqueles homens-espectadores, e tocada pelo lutador que ficou de pé: Bem-vinda à Australia!

 

O nosso herói, Drover (o que leva o gado) também tinha sido responsabilizado por levá-la a casa, numa carripana desengonçada. Essa viagem inclui outra série de cenas bem conseguidas e divertidas, a lembrar desta vez os diálogos cheios de equívocos e de provocações bem-humoradas das comédias românticas dos anos 30 (e como o guarda-roupa é dessa época surge quase a ilusão de viajar no tempo).

Drover explica-lhe que é um homem independente: Ninguém me contrata, ninguém me dá ordens. E dir-lhe-á, filosoficamente: A única coisa que temos é a nossa história.

Mas Lady Ashley não se deixa impressionar, para ela tudo aquilo é uma vida de aventura que também terá fascinado o marido. Uma vida sem responsabilidades.

Os equívocos linguísticos são mesmo hilariantes, Drover fala-lhe de cavalos, Lady Ashley vê-lhes um segundo sentido... A sua opinião do marido também não é lá muito famosa. Imagina-o ali numa vida devassa e só mais tarde irá ver a sua verdadeira motivação, o seu sonho, e dar-lhe sequência.

 

Entretanto, passei por cima das cenas iniciais com o miúdo, Nullah, que se apresenta directamente como não sendo branco, nem preto, não tendo lugar... e o avô, King George, que lhe ensina as histórias, as canções mágicas, tornar-se invisível...

Ficamos a saber que Lord Ashley é morto nesse charco com uma lança aborígene, para despistar.

E ficamos a saber também que o miúdo vive apavorado com receio de ir parar à tal Missão, refugiando-se no tanque de água, de onde espreita Lady Ashley, a mulher mais estranha que já tinha visto.

Para ele, Lady Ashley passará a ser Mrs. Boss. E só depois do funeral de Lord Ashley é que a deixa vê-lo e cantará para ela.

Diz-lhe de forma misteriosa: Vai curar esta terra.

 

A verdadeira aventura começa quando Lady Ashley aceita o desafio, esse sonho quase impossível de levar as melhores cabeças de gado para Darwin.

Mas antes será ela a cantar para Nullah, essa canção de sonhos que encaixa tão bem com o imaginário da cultura aborígene. Tem até um feiticeiro, as chuvas, a Serpente do Arco-Íris...

E o sonho começa a tornar-se possível quando até o bêbado Kipling Flynn (o contabilista) aparece sóbrio.

Já repararam nos nomes de todas as personagens, como são de ficção? Até o cozinheiro chinês, Sing Song, não era o mesmo do cozinheiro da série Bonanza?

 

Bem, voltando ao filme: Outra cena deliciosa, a do desfiladeiro, com o Kipling Flynn a tocar a canção de sonhos ("O Feiticeiro de Oz").

O pobre do Kipling, que irá ficar estendido numa largada da manada e perguntará pelo miúdo, antes de pedir um pouco da bebida de reserva que levara à socapa para circunstâncias especiais.

Cena comovente a do miúdo a enfrentar a manada, quase a escorregar pelo precipício. E depois, já nos braços de Lady Ashley, quando o Drover se aproxima e percebe que, pelo menos naquele momento de aflição, são já uma família no plano dos sentimentos. Drover percebe, pela primeira vez, que está ligado àqueles dois.

Nessa segunda noite bebem em memória do Kipling Flynn e dançam o foxtrot, como explicam, atrapalhados, ao miúdo quando lhes pergunta se é uma dança cerimonial.

Também comoventes (pelo menos para mim) estas lines dos nossos heróis, ao despedir-se nessa noite de descobertas: Acho que daria um óptimo pai... Acho que daria uma óptima mãe...

 

Depois da travessia da Terra do Nunca, guiados pelo King George, a corrida para entregar o gado no barco de metal.

Nullah irá ao cinema ver O Feiticeiro de Oz e os nossos heróis dançarão o foxtrot no Baile.

A chuva cai, para alegria de todos! Drover avisa-a: Na estação seca eu irei levar o gado.

Mas agora está a chover.

 

Doloroso dilema, este de uma mãe do coração aceitar que Nullah terá de fazer a caminhada, partir por uns tempos com o avô. Drover dir-lhe-á que sem isso Nullah não terá história, os sonhos necessários à existência.

Eu compreendi quando disseste que querias ser livre. Mas agora é diferente, nós temos o Nullah.

Mas também Drover viverá o seu dilema doloroso, quando o seu irmão o confronta com a dor de que foge para evitar sofrer:

Estás a fugir. Se não tiveres amor no coração não tens nada. Nem sonho, nem história, nem nada.

Esta cena, do diálogo de irmãos, lembrou-me um outro filme mágico, As Vinhas da Ira, mas apenas na atmosfera, no cenário, pois parecia mesmo um cenário por trás. (Ah, a atmosfera de John Ford...).

 

E não foi apenas esta cena a transportar-me para outras atmosferas, de outros filmes. A cena da invasão de Darwin pelos aviões japoneses e do King George a caminhar tranquilo entre as explosões, lembrou-me O Império do Sol de Spielberg, aquela cena do telhado do Hospital, lembram-se?, quando Jim quase enlouquece ao ver os aviões americanos a rasar os telhados? (J. G. Ballard, o Jim, partiu há dias mas para mim também ficará para sempre nas histórias e nas canções mágicas).

 

Contar histórias é o mais importante. É como mantemos connosco as pessoas que amamos.

 

Australia mostrou-me essencialmente que:

- o cinema é uma linguagem universal, que também vive das suas histórias, das suas personagens, das suas canções mágicas...

- a cultura aborígene sabe que a terra tem um poder, e que as canções mágicas formam caminhos onde não nos perdemos...

- a magia do cinema é da mesma matéria dos sonhos e das canções mágicas.

 

 

 

Obs.: Já que a Feira do Livro de Lisboa está aí, sugeria um livro mágico, O Canto Nómada, de Bruce Chatwin (editora Quetzal).

Apenas um excerto:

Na infância, nunca ouvi a palavra 'Australia' sem que me viessem à cabeça os vapores do inalador de eucalipto e a ideia de um país de cor uniformemente vermelha povoado de carneiros. ...

Tinha na estante um livro sobre o continente australiano e eu olhava, maravilhado, para as fotografias dos coalas e dos martins-caçadores, dos ornitorrincos e dos diabos-do-mato da Tasmânia, do Velho Homem Canguru e do Cão Amarelo Dingo, e da ponte do porto de Sydney.

Mas a fotografia de que eu mais gostava era a de uma família aborígene em viagem. Eram magros e esguios e estavam nus. A sua pele era muito preta, não daqule preto brilhante dos negros, mas um preto baço, como se o sol lhes tivesse sugado qualquer possibilidade de reflexo. O homem tinha uma barba comprida em forquilha e transportava uma lança, ou duas, e um arremessador de lanças. A mulher carregava uma sacola e um bébé pendurado ao peito. Um rapazinho caminhava ao lado dela - identifiquei-me com ele.

Lembro-me dos primeiros cinco anos fabulosos que fiquei sem casa. O meu pai estava na Marinha, no mar, e a minha mãe e eu andávamos de um lado para o outro de comboio a visitar amigos e parentes na Inglaterra em tempo de guerra. ...

Quanto a histórias para adormecer, a minha favorita era o conto da cria do coiote do livro de Ernest Thompson Seton, 'Lives of the Hunted.'

Coiotito era o patinho feio de uma ninhada cuja mãe fora morta pelo 'cowboy' chamado Wolfer Jake. Os seus irmãos e irmãs tinham sido abatidos e a sua vida fora poupada para treinar os mastins de Jake. A imagem dele, amarrado, era a coisa mais triste que jamais vira. No entanto, Coiotito cresceu e tornou-se esperto e, certa manhã, fingiu-se de morto e conseguiu escapar para o mato, onde se dedicou a ensinar a toda uma nova geração de coiotes a arte de evitar os homens.

Não consigo agora explicar as associações que me levaram a relacionar a tentativa de evasão de Coiotito com a 'errância' dos Aborígenes australianos. Nem, no que diz respeito a este assunto, quando ouvi a expressão 'errância' pela primeira vez. Contudo, fiquei com uma imagem desses dóceis 'Blackfellows' que, um dia, trabalham despreocupadamente numa fazenda de gado e, no outro, levantam a tenda e desaparecem no ar sem uma palavra de aviso e sem qualquer razão.

Despiam os fatos de trabalho e partiam durante semanas, meses ou até anos a fio, percorrendo meio continente apenas para encontrar alguém e, depois, regressar como se nada tivesse acontecido. ...

 

 

 

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publicado às 20:29

A inteligência original e as suas infinitas possibilidades

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 23.10.08

 

Pensava que a única grande contrariedade de Beethoven tinha sido a surdez. Mas não.

Uma infância de maus tratos (um pai violento).

Uma juventude em que revela o seu carácter obsessivo, possessivo, ciumento e cruel.

Até à velhice são paixões, desencontros amorosos, decepções, sofrimento, humilhações.

Conhecerá a doçura. Mas muito mais tarde. E não por muito tempo.

 

Immortal Beloved fala-nos essencialmente de um amor secreto de Beethoven. Uma das mulheres que passaram na sua vida terá sido por ele amada de forma intensa, excessiva, inteira.

O filme está construído de uma forma engenhosa. Há uma personagem que serve de elo de ligação com o passado. E há uma carta para uma única destinatária.

As mulheres da vida de Beethoven revelam, curiosamente, diferentes dimensões da natureza feminina: a mulher-companheira e que procria; a mulher sensual e sofisticada; a mulher forte e terna, porto-de-abrigo.

Também engenhosa a forma como as suas peças musicais acompanham as cenas mais significativas, as emoções e os sentimentos envolvidos.

 

Mas não é esta a minha parte preferida do filme. Foi Beethoven-criança, a sua incrível inteligência original, que não tem limites nem fronteiras.

Essa qualidade universal da inteligência que geralmente se perde pelo caminho da domesticação e normalização social. E no caso do nosso Beethoven... da estupidez e violência. Que ele vence. O que, só por si, é um verdadeiro milagre.

E isso é doloroso de ver. O filme dá mesmo a entender que a sua surdez terá sido provocada pelos maus tratos do pai e que se terá agravado com a idade.

Registei para sempre a correria nocturna da criança pela floresta, que aqui nos surge como acolhedora, até chegar a um lago e nele entrar e ficar a flutuar enquanto fixa os pontos luminosos de um universo infinito...

É essa imagem que me fica do filme. Uma criança a flutuar no lago e a fixar um céu de pontinhos luminosos.

É esse Hino à Alegria que nos leva de imediato a um tempo-espaço onde não havia limites nem fronteiras nem violência. A um tempo-espaço em que estamos todos estranhamente irmanados por uma inteligência universal que tudo envolve e que se expande.

É também para esse tempo-espaço que Beethoven, na sua surdez desesperada, consegue transportar-se. Beethoven mantém essa inteligência original. Esse é o verdadeiro milagre. Essa inteligência original vence a surdez, a violência, as suas tempestades interiores.Foi assim que eu o vi.É que a vida e a nossa terrível natureza está sempre a puxar-nos para a mediocridade e a negação dos sonhos. É preciso puxar ao contrário, contrariar o conformismo. E fixar o olhar no infinito.

 

 

 

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publicado às 16:19

Orson Welles, o génio excessivo

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 08.07.08

 

Coloquei Orson Welles no plano do génio, porque é assim que o vejo. Embora uma genialidade que veio acompanhada de um narcisismo exacerbado e de um perfeccionismo obsessivo. Avassaladores, os seus filmes The Magnificent Ambersons, Citizen Kane...

Não é só o seu magnífico domínio da linguagem cinematográfica, em que é único. É a forma heróica, dramática, que imprimiu às histórias familiares, à construção de impérios, à vida de pequenas comunidades. Com Orson Welles, a vida deixa a sua dimensão simples e insignificante para se elevar ao plano dos grandes dramas históricos. Talvez Orson Welles tenha vivido sempre nesse plano shakespeariano e isso vê-se na forma como cria.

Dele escolhi Touch of Evil porque aqui Orson Welles dá um certo espaço a uma liberdade que lembra a vida real e não um palco. Aqui os planos são ainda mais ousados, mais livres, mais soltos. Em arte, mil vezes a liberdade ainda que desajeitada, do que a perfeição que é sempre opressiva.

 

Em Touch of Evil Orson Welles pega no lado mais sombrio da alma humana: corrupção, racismo, violência, abuso de poder, chantagem, manipulação. Aqui não há lugar para ilusões ou fantasias. Tudo é revelado, desde a bestialidade amoral do polícia corrupto até à estupidez rasteira dos jovens delinquentes.

Touch of Evil é também um retrato cruel de uma América invisível à vista desarmada, obscura e violenta. Mas também da espécie humana, quando vista no plano do instinto primário e visceral. E para o revelar, só mesmo uma linguagem excessiva e brutal.

Mas é Orson Welles. E Orson Welles é sempre excessivo.

 

 

 

E também aqui, n' O homem que sabia demasiadoo sinistro Hank Quinlan.

 

 

 

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publicado às 18:30

Sobreviver ao maior desamparo

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 24.04.08

 

Ballard e Spielberg = um filme mágico: O Império do Sol.

Ligam muito bem. É que Ballard entende a nossa época. E além de a entender, consegue traduzi-la para uma língua viva. E Spielberg entende Ballard e traduz essa língua viva, já em si tão sugestiva e visual, para planos e atmosferas que só ele consegue criar.

E quem, como eles, consegue falar dos dramas humanos mais horríveis com aquela frescura e clareza? Já o disse, há uma capacidade de ver a realidade, o olhar de um rapazinho. O adulto perdeu esta capacidade. De se extasiar. De abrir muito os olhos, de ficar de boca aberta. E de interrogar tudo, de tudo questionar.

J. G. Ballard ficou conhecido a nível mundial com este livro autobiográfico. Haverá outros. E todos a revelar a nossa época, para além das aparências, da ilusão. Em todos os seus livros há esta verdade para lá da superfície que só as crianças conseguem ver. O mais belo e o mais horrível. Só as crianças conseguem ver com olhos de ver a violência humana, a estupidez humana. A sua perversidade também.

Cenas dramáticas e poéticas:

O fascínio do miúdo pelos aviões: a sua presença sombreada no teto do quarto, as miniaturas na mão, às voltas na bicicleta, no jardim da casa.

A festa de máscaras, o avião abandonado, o grupo numeroso e ameaçador de soldados japoneses.

A casa deserta, a piscina vazia, a comida enlatada, a espera inútil pelos pais, as ruas desertas percorridas de bicicleta.

A fome, a sobrevivência no campo de prisioneiros, a luta por uma batata. As caminhadas dolorosas, a fome, a doença, a exaustão. E Jim sempre a tornar-se útil, sempre incansável.

A caminhada até esse estádio a céu aberto, no meio do nada, com objectos retirados das casas, carros misturados com mobília. Essa noite da morte da mulher, do casal que o acompanha desde o campo de prisioneiros. E a luz, o clarão no céu dessa bomba atómica que ilumina fantasmas…

O jovem aviador japonês que fica em terra porque o avião não pega, e com quem Jim descobre uma estranha cumplicidade… e que tentará desesperadamente salvar quando é atingido por engano.

A histeria no telhado do hospital, ao identificar os seus aviões bem conhecidos e amados. E o médico a obrigá-lo a declinar verbos em latim, para o acalmar.

O reencontro com os pais.

Jim é um rapazinho que quer salvar toda a gente. E que ficará com esta marca vitalícia: nunca mais poderá ver o mundo pelo olhar distraído do adulto.

 

Obs.: E daqui, de um outro lugar, a Xangai imutável e nostálgica que vemos no filme, na cena em que Jim se perde dos pais no meio da multidão.

 

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publicado às 12:53

A proximidade de tudo o que é humano

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 10.12.07

 

Em On Dangerous Ground é a neve muito branca que ilumina tudo. O branco onde tudo se pode escrever.

O nosso herói vive atormentado. Não se sente bem na sua alma, no papel de polícia, na cidade, na solidão, na violência. A cidade sempre escura, a esconder o crime e a decadência. Os preconceitos no olhar do outro que tornam qualquer comunicação impossível. Deixa-se levar pela sua própria violência e acaba por ser despachado por uns tempos para o longínquo norte, onde terá de descobrir o assassino de uma miúda.

O que mais impressiona é aquele branco interminável da neve. Aquela casa tão isolada de tudo. Aquela mulher tão isolada do mundo e, no entanto, o mais próxima possível do mundo. E de tudo o que é humano. Do irmão louco que lhe traz o mundo para dentro de casa e que ela protege do próprio mundo.

A casa é o refúgio, um pequeno mundo onde cada objecto tem uma história, um significado. O homem comove-se, pela primeira vez. E pela primeira vez deixa de lutar contra o mundo. Pela primeira vez chega a casa. Encontra o seu lugar.

A mulher compreende o homem desde o início. Vê melhor porque não é com os olhos que se vê o essencial. E aceita-o sem receio ou condições. Confia porque aprendeu a viver assim. Essa é a forma de o libertar da impossibilidade de comunicar.

 

 

 

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publicado às 15:36

Thunderheart

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 12.11.07

Maravilhosa metáfora para os tempos actuais… no país, na Europa, no mundo… Revejo o filme com a mesma alma rebelde, e já lá vão quinze anos… Voltei sempre a esse Thunderheart para me lembrar que às vezes o indivíduo e o grupo podem enfrentar interesses obscuros e dominantes.

The suits… the Cavalry… a que o nosso herói julga pertencer no início e de que se vai distanciando ao longo do filme. À medida que encontra as suas verdadeiras raízes, que o sistema lhe tinha ensinado a rejeitar e a abandonar, deixando-o sempre inseguro, a agarrar-se a certezas exteriores, autoridade, justiça, the FBI…

A realidade exterior do sistema contrasta com a realidade humana das populações, da comunidade. E isso torna-se evidente, não se pode negar. Quem se aproxima dessa outra realidade, da humana, e ainda mantém uma réstia de humanidade na alma… desmonta essa fabricação.

Aqui o nosso herói recupera essa base de apoio e afirma-se como é, antes da programação. Irá seguir as suas raízes índias, o lado do pai. Mas ainda terá de sofrer esse abalo, descobrir que tinha seguido a mãe na negação e rejeição do pai. A identidade masculina faz-se sempre por diferenciação e implica a paz com o pai dentro de si.

Deliciosa expressão do suit, ao persegui-lo de carro, na cena final: He's going native on us... E deliciosa visão final do grupo, da comunidade índia, que aparece em cima dos montes, a toda a volta… como o bater de um grande coração universal… A visão da esperança dentro de cada um de nós…

 

 

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publicado às 11:25

O melhor filão está dentro de nós

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 04.10.07

 

De novo a mulher, o homem e o rapazinho, mas desta vez não um rapazinho-criança, como no Rio sem Regresso. Um rapaz a caminho da sua autonomia, com uma voz própria, aliás, mais madura por vezes que a voz dos homens, que alia coragem e determinação a ternura e cuidado.


De novo esta estranha composição, seres vulneráveis e sós, que se apoiam e se ligam por laços tão fortes como o seu desamparo. Na natureza áspera e selvagem das montanhas, onde homens igualmente ásperos e selvagens procuram o eterno filão.


A cegueira da mulher e a visão que vai adquirindo, com o apoio do homem e do rapaz, em quem aprende a confiar, tem um sentido mais profundo. Medo da claridade, da verdade, da perda, da dor? O homem ajuda-a a libertar-se desse medo de ver, de viver, mas foge do seu próprio medo de amar, de confiar. E de ser assim amado, de forma tão inteira. O rapaz entende tudo isso e di-lo, sem rodeios. Será ele o protector da mulher, a sua companhia, o seu afecto. O homem apoia-os de longe, em segredo.


Até tudo se precipitar e ultrapassar as nossas personagens. Circunstâncias próprias da natureza humana, a sua terrível ambição e mesquinhez, a descoberta de um filão. E o seu terrível sentido de posse, de território. A sua boçalidade.


O amor do homem, que tinha surgido da forma mais suave e quase maternal, ao ajudá-la a abrir os olhos e a ver, também o cegará de ódio e despertará nele a luta mais primitiva quando a vê em perigo.


E é quando tudo parece perdido, o homem rodeado pelos justiceiros e sedentos de espectáculo, na hanging tree, que é salvo pelo amor que receia, de que foge. A mulher e o rapaz vêm resgatá-lo, o filão pelo amor. Como pode ele continuar a fugir? Elizabeth. Inclina-se sobre ela, a imagem poética e sensual.


Estranha natureza humana: quando o pior de nós surge, o melhor de nós surge também, o melhor filão, o genuíno, o que perdura, o que está vivo.

 

 

 

 

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publicado às 10:21


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